RAÍZES CRESCEM SOLO ADENTRO SOB A LUZ DE KÛARASY 

 

 

Abiniel João Nascimento

Curador

Caraúba-PE

Agosto de 2021

 

Entre o nevoeiro formado bem de manhãzinha, enquanto os primeiros raios de luz iluminavam o sereno nas folhas do coqueiro, ouvi o universo acordando. Os primeiros pios do bem-te-vi no pé de manga; as vassouras de mato ciscando o terreiro, compunham, junto aos zunidos das abelhas, uma canção recorrente desta terra. Despertava de mais uma noite onde os encantados faziam festa em meus sonhos, como na madrugada a qual acordei junto com minha avó para saudar îasy: olhávamos para cima como se olhássemos para dentro, vendo a enorme bola vermelha no céu daquele ano. 

Ainda embriagado pelas memórias do sonho, ao sentir o cheiro de fumaça e café, lembrei das idas e vindas da casa de farinha. Era no tempo da colheita de mandioca quando as histórias se reviravam, como se ao mexer com a terra estivéssemos mexendo em nossas fotografias. Neste tempo quando minha mãe contava as histórias dos mais velhos encantados, transformados em raízes que  sustentam nossa terra. Às vezes me perguntava: por qual motivo contamos nossas histórias como se a raiz do pé de manga frutificasse galho de tamarindo?

Mas o tempo passou, passou e eu andei, andei, andei. Nesses caminhos, encontrei outras pessoas de longe, contando histórias mutiladas que me soavam familiares. De tão semelhantes, as narrativas nos faziam parentes, nascentes da mesma terra.  Ora, se violentando nossos galhos decretaram nossa morte, não contaram com nosso crescimento solo adentro sob a luz de Kûarasy. Memórias, histórias e ciências permaneceram em nossos corpos, mesmo em segredo. Subterrâneas em nossa pele-pedra, fogo e água.

A exposição “Hoje somos muitas árvores”, assim denominada em referência a uma poesia da cacica Maria D’ajuda do povo Pataxó de Cumuruxatiba, aponta para tempos denotadores de permanência, de renascimento e de luta - marcadores das identidades indígenas na terra denominada Nordeste.

Guiades pelas tradições e contradições de nossas reminiscências narrativas, quinze indígenas compõem uma contra-história a partir de suas expressões criativas, construindo barricadas de outros tempos na cronologia arquitetada para nosso fim. Trabalhos construídos em diversas materialidades, buscam ampliar o sentido da Arte Indígena Contemporânea ao deslocar da arte o único sentido da criação.

ROOTS GROW INTO THE SOIL UNDER THE LIGHT OF KÛARASY

Abiniel João Nascimento

Curator

Brazil - Caraúba-PE

August of 2021

 

Amidst the fog formed very early in the morning, while the first rays of light illuminated the dew on the coconut leaves, I heard the universe waking up. The first chirps of bem-te-vi on the mango tree; the bush broom scratching the yard, made up, next to the buzzing of bees, a recurring song of this land. I was waking up from another night where the enchanted feasted in my dreams, like the dawn when I woke up with my grandmother to greet îasy: we looked up as if looking inwards, seeing the huge red ball in the sky that year.

Still intoxicated by the memories of the dream, upon smelling the smoke and coffee, I remembered the comings and goings of the flour house. It was at the time of the manioc harvest when the stories turned upside down, as if when we were moving the earth we were moving our photographs. At this time when my mother told the stories of the eldest enchanted, transformed into roots that sustain our land. Sometimes she would ask me: why do we tell our stories as if the mango tree root fruited a tamarind branch?

But time passed, passed and I walked, walked, walked. Along these paths, I met other people from far away, telling mutilated stories that sounded familiar to me. So similar, the narratives made us relatives, springs from the same land. Now if by violating our branches they decreed our death, they did not count on our growth in the ground under the light of Kûarasy. Memories, stories and sciences remained in our bodies, even in secret. Underground in our stone skin, fire and water.

The exhibition “Today we are many trees”, named after a poem by the Cacica Maria D'ajuda of the Pataxó people of Cumuruxatiba, points to times denoting permanence, rebirth and struggle - markers of indigenous identities in the land called Nordeste.

Guided by the traditions and contradictions of our narrative reminiscences, fifteen indigenous people compose a counter-history based on their creative expressions, building barricades of other times in the chronology designed for our end. Artworks built in different materials, seek to expand the meaning of Contemporary Indigenous Art by displacing the sole meaning of creation from art.

Renata Felinto por Renata Felinto

Curadoria: Prof. Dr. Fábio Rodrigues

Assistente de curadoria: Caleb Costa

Renata Felinto é artista visual nascida em São Paulo em 1978. A partir de 2016 passou a residir e trabalhar na cidade do Crato – Ceará, logo após ingressar no Departamento de Artes Visuais do Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri – URCA. No Instituto de Artes da UNESP (SP) cursou o Bacharelado (2001), o Mestrado (2004) e o Doutorado (2016) em Artes Visuais. Especializou-se em Curadoria e Educação em Museus de Arte Contemporânea pela Universidade de São Paulo – USP em 2010.

 

Como artista/professora/pesquisadora do Centro de Artes da URCA tem se dedicado ao setor de Teoria da Arte no Curso de Licenciatura em Artes Visuais. É líder do grupo de pesquisa NZINGA – Novos Ziriguiduns (Inter)Nacionais Gerados na Arte, coordena o Projeto de Pesquisa YABARTE e o Projeto de Extensão de mesmo nome, ambos projetos vinculados ao Grupo de Pesquisa NZINGA. Idealizou e coordena juntamente com o prof. Fábio Rodrigues o Seminário Internacional Arte, Gênero, Ensino – SIAGE.

 

Ao longo dos últimos 20 anos a prática artística de Renata Felinto articula e relaciona arte, identidade e gênero pautando “a questão da identidade negra feminina, deslocamentos e conexões como a globalização em diálogo com a história ancestral”. (PORTFÓLIO, 2020).

 

Desenhos, pinturas, fotografias, performances e happening são as linguagens que se utiliza para tensionar e questionar construções estéticas e culturais ao encarnar por meio de sua autoimagem mulheres negras de diferentes contextos culturais. Desde que fixou residência no Cariri cearense tem incorporado e mantido sua narrativa sobre o lugar das mulheres negras no Brasil e na região criando imagens nas quais se coloca como a Beata Maria de Araújo, Maria Caboré ou a Mestra Maria Margarida.

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A exposição Renata Felinto por Renata Felinto é ao mesmo tempo uma retrospectiva da trajetória dessa jovem artista como um retrato dessa autoimagem que nos leva a estados de reflexão sobre o racismo estrutural de nosso país e região do Cariri, sobre vidas de mulheres negras e sobre a elaboração de estratégias estético/artísticas para que possamos desaprender e aprender com as práticas artísticas contemporâneas (CANTON, 2009) sobre nós mesmos. 

Renata Felinto de Renata Felinto

Curaduría: Prof. Dr. Fábio Rodrigues

Asistente de curaduría: Caleb Costa

Renata Felinto es una artista plástica nacida en São Paulo en 1974. A partir de 2016 se trasladó a vivir y trabajar en la ciudad de Crato - Ceará, poco después de incorporarse al Departamento de Artes Visuales del Centro de Artes de la Universidade Regional do Cariri - URCA. En el Instituto de Artes de la UNESP (SP) cursó la Licenciatura (2001), la Maestría (2004) y el Doctorado (2015) en Artes Visuales. En 2005 obtuvo una Licenciatura en Artes Visuales del Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2005) y se especializó en Curaduría y Educación en Museos de Arte Contemporáneo por la Universidade de São Paulo - USP en 2010.

Como artista / docente / investigador en el Centro de Artes (URCA) se ha dedicado al sector de Teoría del Arte en la Licenciatura en Artes Visuales. Es líder del grupo de investigación NZINGA - – Novos Ziriguiduns (Inter)Nacionais Gerados na Arte, coordina el Proyecto de Investigación YABARTE y el Proyecto de Extensión del mismo nombre, ambos proyectos vinculados al Grupo de Investigación NZINGA. Idealiza y coordina con el prof. Fábio Rodrigues el Seminario Internacional Arte, Género, Docencia - SIAGE.

Durante los últimos 20 años, la práctica artística de Renata Felinto articula y relaciona arte, identidad y género, orientando “el tema de la identidad femenina negra, los desplazamientos y conexiones como la globalización en diálogo con la historia ancestral”. (PORTAFOLIO, 2020).

Dibujos, pinturas, fotografías, performances y happening son los lenguajes que utiliza para tensar y cuestionar las construcciones estéticas y culturales al encarnar a través de su autoimagen a mujeres negras de diferentes contextos culturales. Desde que se instaló en Cariri Ceará, ha incorporado y mantenido su narrativa sobre el lugar de la mujer negra en Brasil y en la región, creando imágenes en las que se posiciona como Beata Maria de Araújo, Maria Caboré o Mestra Maria Margarida.

 

La exposición Renata Felinto de Renata Felinto es al mismo tiempo una retrospectiva de la trayectoria de esta joven artista como retrato de esta autoimagen que nos lleva a estados de reflexión sobre el racismo estructural de nuestro país y la región de Cariri, sobre la vida de mujeres negras y en la elaboración de estrategias estéticas / artísticas para que podamos desaprender y aprender de las prácticas artísticas contemporáneas (CANTON, 2009) sobre nosotras mismas.